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terça-feira, 22 de março de 2011

CXX

Pelo limo que fica no canto de cada parede, ele acha que escorrega. Há tempos ninguém limpa nada. Há tempos ele soltara da mão da esposa e há tempos ele não fala com ninguém. Alguém comera o braço dela. Um outro devorara sua costela. Ele, instintivo, não fizera nada. Culpara a escuridão por não se mexer quando ela gritara seu nome e sobrenome achando que ele se confundira quando não foi ajudá-la. Ele ouviu quando quebraram os ossos dela e quando o cheiro de carne ficou em suas narinas por dias. Pois ele também usou da carne dela e a espalhou por seu corpo para que eles não pudessem pegá-lo. Ele dissera que a amava. E foram as gorduras dela que o alimentaram por semanas.
por hanny saraiva

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

CIV

Todos os dias as pessoas acordavam, mas a Escuridão arrancava sonhos. Depois do ano I houve o período de Adaptação. O Período de Adaptação consistia em uma identificação de fluxos de neurônios para descobrir o que se pensava. Descobriram que algumas pessoas tinham Síndrome de Inadequação Mental. Algumas pessoas tinham pesadelos. No começo quase ninguém lembrava, mas quando um expressou a experiência, multidões começaram a vivenciá-la.

Cristal foi a primeira. O pesadelo na Escuridão não era feito de cores nem de movimentos nem de imagens há tempos adormecidas. Pesadelos eram feitos de descontrole corporal. Ao deitar e fechar os olhos o período de REM mandava choques para as pontas dos dedos.

Cristal foi a primeira a percebê-los. Depois dos choques, os braços ficavam presos, rentes ao corpo. As unhas latejavam, as têmporas pinicadas com alfinetes. Mas a pior parte acontecia na barriga. O clímax do pesadelo acontecia quando um peso sobre a massa do sonhador exprimia a gordura do abdômen. A pessoa achava que estava sem ar e as informações obtidas com os voluntários mostraram resultados semelhantes à torturas de guerra.

Foi por causa de Cristal que os líderes começaram a se interessar por pesadelos. Ela acordava com as veias alteradas, seu corpo lutava contra sua mente tentando se libertar das amarras oníricas. Era uma luta física. Depois de 349 pesadelos, as veias engrossaram tanto que Cristal passou os últimos 433 dias de sua vida sem dormir. Lutou até estourar, como em autocombustão.

Os olhos não mais enxergavam, mas os corpos reagiam e a mente desconstruía-se para se adaptar. Alguns diziam que pesadelos eram como grãos de prata de película. Ninguém imaginava o que viria quando o corpo finalizasse o filme. Poucas pessoas só sonhavam. 

por hanny saraiva

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

CII

Vou te contar uma estória.
Chega aqui, mais perto do fogo, mas cuidado, nesses noites de vento gelado o fogo pode te queimar sem você perceber.
Pois bem. Eu tinha 27 anos naquela época. Morava numa cidade e ia trabalhar em outra, bem maior e movimentada.
As ruas eram cheias de gente, que andavam apressadas de um lado pro outro. E os vendedores ambulantes vendiam de tudo nas ruas. Mesmo correndo pra não me atrasar eu tinha tempo de admirar os prédios enormes e espelhados. Era tudo muito bonito.
E eu achava que ia ficar rico, ser um daqueles executivos com carros novos e motoristas e secretárias loiras e notebook a tiracolo. Era ingênuo e irresponsável. Não era ainda o homem que sou.
Foi numa manhã chuvosa que encontrei aquele homem. Eu andava apressado, pois já estava atrasado. Me lembro da cena. Olhei pra frente, vendo todo aquele mar humano seguindo a mesma direção que eu. E naquele mar de repente esse homem parou, virou de costas e ficou me olhando. Continuei andando, e ele continuou parado, olhando pra mim. Quando cheguei perto, fui me desviar, mas ele me barrou a passagem, sempre olhando em meus olhos. E os olhos dele eram tristes, estáticos, como se não tivesse expressão. Você nem deve se lembrar como os olhos das pessoas conseguem dizer sobre elas...
Ele me disse: "Cuidado com suas escolhas". Eu falei pra ele sair da minha frente, e continuei andando. Já alguns passos depois eu olhei para trás, e ele continuava parado, olhando em minha direção com aqueles olhos tristes, enquanto dezenas de pessoas passavam por ele. Fiquei um pouco assustado, mas continuei em frente.
Cheguei em frente ao grande prédio de janelas espelhadas onde trabalhava, e bem na porta havia um vendedor ambulante, com sua pequena barraca de madeira montada, com várias bugigangas indecifráveis. Mesmo atrasado eu parei para olhar
Havia um pinguim-anão, uma vela e uma canção escrita em letra cursiva. O vendedor tinha a mão manchada com pintas avermelhadas e duas verrugas não muito salientes. Ele não me olhou nos olhos. Seu olhar estava fixo nos objetos que eu observava.
É de uma ilha dos mares austrais, ele disse segurando o pescoço do pinguim - Ele pode te mostrar a casa, mas não vai te mostrar o número, continuou ele alisando as asas atrofiadas da ave. O pinguim tinha os olhos marejados. Pude ouvir de dentro dele ‘Cada escolha é uma consequência jogada no mundo e consequências são como bocas de leão.’
Me assustei e pisquei mais rápido que o normal . Quando percebi o vendedor estava a acender a vela. Quis dizer não, não, por favor não acenda, mas o pavio curto foi mais rápido que as palavras. A mãe dele havia lhe presenteado com uma vela azul e ele levou para lá por respeitar os mais velhos. A vela vai te guiar, ele disse que ela disse, vai te mostrar a ter paciência, mas também vai te confundir com o bruxulear. Vai te fazer nomear o que você acha que é alegria, o que é tristeza, o que é necessidade e o que é superficial. Mas nada disso será real.
Eu poderia ter apagado a chama com os dedos, mas o vendedor assoprou e a enrolou em um pedaço de jornal assim que peguei o papel, com letras tremidas escritas de forma rápida.
Essa é a canção pra sua vida, ele disse.
Eu dei uma risadinha de boca fechada.
Você vai escrever e reescrevê-la, mas tudo o que você precisa saber está aí, ele continuou. 
Não tem nome, retruquei ironizando. 
Você dá nome a sonhos quando acorda? – ele perguntou sério.
O vendedor ambulante colocou na mesma sacola a vela e o papel com a canção. O pinguim ele hesitou um pouco. Era nítido que o animal despertava afeição.
Me pague quando sair de sua mesa, quando suas gavetas estiverem cheias e sua vida for mais do que dor de cabeça – ele me disse colocando o animal gordurento sobre meus braços. O pinguim quase caiu, mas eu consegui fazer uma concha pra que ele não despencasse.
Se você não suporta tudo que carrega em você, por favor, saia de fininho. Não faça besteira nem grite, gosto de quem fala sem se alterar.  
Eu dei apenas dois passos para trás.
A vida continuou. Eu cresci dentro da firma, me tornei um dos diretores. Conheci uma bela mulher e tive um filho. Tudo parecia bom para mim. 
Cuidei da pequena ave, que engordou mas nunca perdeu a tristeza no olhar. 
A vela acendi 4 vezes, e tive respostas pra minhas perguntas. A última resposta foi que era eu mesmo quem deveria responder a todas as perguntas.
O papel com a música eu nunca abri, nunca tive coragem de ler. Talvez devesse ter lido, talvez tivesse sido diferente.
Como dizia, foi quando tudo estava bom como nunca para mim que encontrei aqueles dois homens novamente. O primeiro me veio em sonho. Disse que todas as escolhas que tinha feito teriam repercussão em breve, mas que a próxima seria a crucial. Ele me dizia isso boiando de braços abertos numa pequena piscina daquelas de plástico, sabe? Eu não podia levar à sério num sonho falando de escolhas pra mim numa piscininha de plástico, podia?
Não podia mas devia...
Aquele dia parecia outro dia tão normal como o do primeiro encontro, apesar do sonho, que a essa altura já estava em processo de esquecimento. Estava descendo do carro, no estacionamento do prédio da empresa, quando percebi uma figura esguia me esperando.
-Vim cobrar sua dívida.
- Eu não te devo nada. Tudo que conquistei foi por meu esforço! 
- Vim cobrar sua dívida.
- O que você quer? - perguntei a ele.
- Você tem uma escolha. Ou vem comigo, ou não vem comigo.
Apesar de não entender o que acontecia, eu fui tomado por um grande medo. Aquele homenzinho não havia levantado a voz, nem tido qualquer outra expressão, mas tive medo dele. Voltei pro carro correndo e acelerei, passando por cima dele. Olhei pelo retrovisor e vi aquele corpo pequeno no chão. Fui tomado por um medo ainda maior, que me imobilizou por alguns segundos. Mas voltei. Saí do carro e corri até ele, que não parecia estar ferido.
- Pensei que não fosse vir.
Então seus olhos se tornaram negros, e as luzes do estacionamento se apagaram, e a luz do sol lá fora foi ficando mais fraca, e mais fraca, e mais fraca, até tudo se tornar escuridão.
Foi assim que aconteceu. Foi tudo culpa minha.

Mas quem você acha que ele era? Deus? O coisa-ruim? E por quê a luz acabaria por sua causa?

Acho que não, pequeno. Não acredito nessas coisas. E nem sei porque a consequência do meu erro foi tão ruim. Nem sei qual foi o erro, na verdade. Mas foi culpa minha. Tudo isso. Mas hoje eu tive um sonho. Uma voz que nunca vou esquecer me disse que em breve eu terei outra chance.
E dessa vez eu não vou errar. Não vou não.

por mazé mixo e hanny saraiva

terça-feira, 19 de outubro de 2010

XCIX

Na Escuridão já não havia mais bruxos. Ninguém sabia quando era Lua Cheia ou Minguante, então Ana Clara parou de dançar pelada pelas fogueiras, pois não conseguia mais enxergar as brasas. Parou também de ir para a janela gritar Mãe Natureza.  Não viu mais sentido em sua vida, então passou a costurar meias e a trocá-las em troca de bananas. Passou fome. No escuro, as pessoas escorregavam pelo chão de taco e batiam sempre a cabeça. Ela foi queimada viva como na era da Inquisição. Chamaram-na de Ave Maldita do Pé.
por hanny saraiva

domingo, 12 de setembro de 2010

LXXXVI

- Johnny, quem disse que não posso ir até a caixa-d'água? Eu não sou mais criança
- Voce nao eh mais criancca mas a escuridao nao te fez menos cega, boba...
- Acontece que agora o nível de perigo da caixa d'agua fica igual pra todos e o Johnny enxerga tanto quanto eu...
- Johnny o caralho, meu nome é Zé Pequeno!

por anderson barnabé, hanny saraiva, iris yan e mazé mixo

domingo, 29 de agosto de 2010

LXXVII



por hanny saraiva e henrique de sá

domingo, 22 de agosto de 2010

LXVII

O extrato acima foi encontrado por um gravurista que fazia pesquisa nos altos da cidade de Butãtã. A madeira usada ainda não foi identificada, mas acredita-se que o documento não se refere aos anos D.E. (Depois da Escuridão) e sim ao período anterior. Há indícios de que foi entalhada para fins acadêmicos.

por hanny saraiva


terça-feira, 10 de agosto de 2010

XLVIII

- Está escuro! Acabou o mundo! Vamos, vamos!
- Calma, Alfredinho. Você ainda tem que chupar um pouquinho mais aqui.

por hanny saraiva

XLVII

alguns diziam que era bobagem o que se ouvia na televisão:

hoje é o dia internacional de limpar os olhos. aqueles que estão com imagens permanentes em suas retinas, devem procurar um kit de limpeza no posto de recuperação, o mais rápido possível. não é saudável lembrar.

por hanny saraiva

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

XXXVIII

Miguel tinha a pele alva como a de um gringo. Mas morava em um sítio invadido em Tinguá. Toda a tarde brincava de pique esconde com sua mãe mulata, de cabelos esvoaçantes. Eles adentravam mata selvagem e se escondiam atrás de árvores sem nomes. Filho único, Miguel achava que segurança era gritar sua matriarca e ser sempre correspondido.

No dia em que tudo ficou escuro, ele estava de short curto e sem blusa. Corria solto tentando encontrar a árvore perfeita. Quando gritou Mãe, a luz se foi. De dentro de seu peito, a palavra repetiu-se desesperadamente. E junto com ela, uma sensação de que precisava correr. A pele cortou-se entre os galhos que o seguravam, o short molhou-se com o orvalho que pingou das folhas. Miguel gritou até ficar rouco. E pela primeira vez, em nove anos de existência, sua mãe não respondeu.

por hanny saraiva

domingo, 1 de agosto de 2010

XXVII



por hanny saraiva e henrique de sá

sexta-feira, 30 de julho de 2010

XXV

B: - 5124-0016. Ligar.
Mateus: - Alô?
B: - Oi, Mateus.
Mateus: - Oi. Você já fez?
B: - Fez o quê?
Mateus: - Idiota...
B: - Olha, só to ligando porque ela insistiu muito.
Mateus: - Sei.
B: - Ela descobriu.
Mateus: - Porra, caralho, você é idiota? Por que você contou?
B: - Ela viu.
Mateus: - Viu como?
B: - Ah, você entendeu!
Mateus: - Calmaí.

(Mateus toca no poste à sua frente e uma voz diz “Você está na rua 180. Pra onde deseja ir?)

Mateus: - Cavaleiro das Trevas.

(A voz repete 3 vezes: “Beco sem saída”)

Mateus: - Você tem 10 minutos pra chegar lá.
B: - Nas Trevas?
Mateus: - Vai me devolver toda a porra agora.
B: - Mas ela...
Mateus: - Esquece ela. Sai daí agora! Não quero que você mostre mais.

(B. aperta um interruptor e o andar inteiro onde se encontra desce. Ele carrega uma caixa grande de palitos de fósforo.)

(Cavaleiro das Trevas Rock Bar: Mateus e B. se encontram numa grande sala. As paredes são azuis.)

Mateus: - Fudeu. A gente tem que se livrar dela.
B: - Ai, cara...
Mateus: - Se ela espalhar, vai ser o caos.
B: - Por causa de uma migalha de FAÍSCA?
Mateus: - Você esqueceu o que uma migalha dessa merda faz, gênio?
B: - Tá, eu mato ela. Mas ela chupava tão bem...

por mazé mixo e hanny saraiva

XXIII

2020 pessoas foram encontradas vagando pelas ruas. só 3 sabiam para onde estavam indo.

dezembro do ano I da Escuridão.



por hanny saraiva

segunda-feira, 26 de julho de 2010

sábado, 24 de julho de 2010

XI

alguém estava morto logo abaixo, ele podia sentir. não fedia nem estava gelado. estava morno como chá esquecido em cima da pia. exalava uma saída às pressas. ele havia pisado na carne enquanto tentava descer a escada do prédio. era estranho o silêncio dessa parte do mundo em meio ao preto.  de que teria morrido a pobre criatura? susto? medo? velhice? quis tocar a pele para tentar descobrir a idade, o sexo, a causa, mas lembrou que o corpo era sagrado. se o tocasse, toda sua razão existencial se evaporaria. ele era feito para santidade, não podia se contaminar.

mas junto com a negritude do mundo, vinha o desejo. quem descobriria? era a chance de aproximar-se, de sentir o contorno do indivíduo, de tentar sentir como eram os pelos.

encostou sua face em qualquer parte do corpo. não entendia. ele achava que a carne era como defeito de parafusos, deformidade de corrente, engrenagem mal conectada. mas o corpo caído era macio. sentiu primeiro as unhas, depois cheirou as sobrancelhas e passou o nariz pela orelha.

o mundo poderia estar envolto a medo e insegurança, mas o desejo nele crescia. vinha pelos pés, passava pelos joelhos, alcançava o peito e explodia nas têmporas.

ele arfou. e como quase todo homem santo, curvou-se. passou a língua nos dentes que estavam mortos e suspirou. havia gosto ainda. em meio a ausência de cor, ele fechou os olhos e talvez tenha adormecido ou se perdido em pensamentos por alguns minutos. ninguém viu. segurou então as mãos do morto e citou uma prece que quase ninguém conhecia.

aí continuou seu trajeto de tatear e descer a escada.

por hanny saraiva

VII

"Nossa existência não é mais que um curto circuito de luz entre duas eternidades de escuridão" (Vladimir Nabokov)

- Você vê? foi o que ela disse para ele quando estava caído, deitado.

mas ele não via. ouvia um barulho de ranger de dentes. um lixar de unhas. o movimento de engolir saliva. mas não via. ela estava parada, à sua frente. respirava lentamente. ele se perguntou por que ela não se mexia. ela deveria assustar, deveria futucar com gadanhas. mas ela só abria e fechava os olhos como se o fechar e o abrir fossem respostas em meio ao blecaute. cílios, ela tinha. compridos. boca, também. lábios desiguais. ele esperou pelo beijo. pelo frio. pelo passar da vida em frente à sua escuridão, mas nada veio.

- você vai me poupar? – ele perguntou.
- não. – ela respondeu – meu nome é Morte.

então ele foi agarrado e desapareceu em meio a sombras inexistentes. O mundo estava escuro e as pessoas ainda morriam.

por hanny saraiva

sexta-feira, 23 de julho de 2010

IV

quando a luz do mundo acabou, ela havia batido o dedão do pé no rodapé da sala.
e a dor foi tão intensa que ela fechara os olhos. e de dentro de seus olhos, multicores piscavam como luzes de Natal.
contorceu-se. a dor atingia a ponta do estômago, como se enroscasse e agulhasse em etapas. a dor, o corpo e as cores: choques enviados pelo cérebro.
com os olhos abertos, achou ter visto uma unha arroxeada. era um truque da mente, pois a luz há um tempo se fora e ela estava ali, latejando como se trouxesse o peso do mundo sobre um único corpo. o seu.

por hanny saraiva

II

Quando a escuridão chegou ao local onde ela estava, pensou que sua alma havia parado. Pensou nas possibilidades pós-morte e até ter os olhos acostumados à negritude, sentiu o próprio coração entre os dedos. Pulsava consciência e líquido. Ninguém mentia em meio à escuridão. Às vezes quando achava que piscava e nada enxergava, seus olhos varriam cores. Cores que na verdade faziam parte de seu imaginário. Sa queria correr porque a solidão do pretérito-mais-que-perfeito a perturbava. Por qual motivo as luzes teriam ido embora? Por que os pensamentos a transportavam para frente e para trás? Por mais que ela quisesse se acostumar à escuridão, pipocavam imagens de outrora. Para onde partir? Aqui. Ali. O corpo pediu movimento e ela encostou-se à parede. Era gelada, como freezer descongelando. A cabeça começou a doer, a latejar na têmpora. De repente, toda sua estrutura física era sangue percorrendo veias. De repente, todo seu suor de medo havia desaparecido e só restavam algumas palavras de desorientação. A ESCURIDÃO trazia essa ânsia por imagens. Como se o peito sufocasse se as coisas iluminadas não fossem lembradas. Como se todo o efeito do mundo não fosse grito lá fora, mas um fantasma perseguindo o silêncio. A audição era estranha. Ouvir uma gota, um arrolhar, um acorde no fundo. Alguém tocava folk. Como poderia deslizar os dedos na corda se ela nem conseguia se mexer? A melodia cortou seu eu, que começava a rasgar o tempo com linhas imaginárias. SA abriu a porta. Escutou quando o alumínio encontrou-se com as dobradiças e sentiu a respiração do mundo em uníssono. O que as pessoas sentiam ela nem imaginava, mas ela deu o primeiro passo e gritou seu próprio nome para o fim. Como resposta ouviu um “Eu também”. 

por hanny saraiva