segunda-feira, 30 de agosto de 2010

LXXVIII

De todos que pisavam a terra naqueles novos tempos, exista um grupo de homens com super poderes, capazes de dominar o escuro e fazer dele um lugar comum, como se nada tivesse mudado na vida deles. Esses homens então foram considerados mestres:
- Mestre, de agora em diante, agora que já caminhamos tanto e que o caminho é plano, liso e não temos mais pedras como referência nos guiando, pra que lado vamos?
- Homem tolo, disse então o mestre, vamos para o lugar onde seremos mais bem tratados, vamos para onde já fomos...

Em terra de cego, quem é cego é rei!

por anderson barnabé

domingo, 29 de agosto de 2010

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

LXXVI

"O prefeito da cidade diz não estar vendo nada de ruim para ser melhorado..."

por anderson barnabé

LXXV

O assunto que estava rolando nos últimos dias era que a culpa de toda aquela escuridão era dos Estados Unidos.

- Aposto que lá eles têm luz, oh povinho muquirana.
- Coitados, nem sabemos se a culpa é realmente deles. Eu acho que isso é coisa do demônio!! 

Enquanto isso em algum lugar dos Estados Unidos, duas pessoas que não se sabe quem, conversam.

- Não é possível!! Como isso pode ter acontecido logo conosco? Um país tão potente.
- Quando a luz voltar eles vão se arrepender!
- Eles quem?
- Sei lá... O Irã, a Coréia do Sul, Deus, o Cão... Seja quem for. Quem fez isso vai pagar, você vai ver!

por veruska thaylla 

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

LXXIII

Éramos apenas um casal de namorados, e ainda não havíamos nos tocado intimamente. Era a primeira vez de ambos.
Eu estava com vergonha do meu corpo, e ele não sabia onde tocar primeiro.
Ficamos lá, horas deitados, olhando pro teto, sem saber o que fazer...
Então eu fechei meus olhos e desejei que todas as luzes se apagassem para que eu perdesse meu medo, e pudéssemos nos amar.
Daí então tudo se fez breu
Ele disse: - Quedas de luz são freqüentes por aqui.
E eu respondi com um sorriso malicioso, procurando o botão de sua calça: - Espero que não volte nunca mais!

por thainara mp

LXXII

- Você ta tão bonita! Por que resolveu vestir roupa hoje?
- Porque o safado do cliente lá da padaria cisma de me cumprimentar pegando nos meus seios, puta que pariu! Parece que o homem enxerga! Sempre vem com a mão certinha.
- Xiiiii... Fala baixo, ou melhor, nem fala sobre isso! Você ta maluca?! Já pensou alguém ouve você falar essa barbaridade? Vão acabar te matando!
- Por falar nisso, você tem noticias daquela mulher que andava por aí gritando que tava enxergando?
- Nunca mais...

por veruska thaylla

LXXI


Abriu os olhos após horas de sono. 
Ainda pensando no sonho que acabara de ter, esperava ver a claridade em sua janela de vidro granular entrando em seu quarto como todos os dias. Porém nada podia ver. Nem ela mesma. 
Não sabia muito bem o que estava acontecendo consigo. Ouvia vozes falando e sussurrando de algum lugar. – Estamos ficando malucos? Levantou-se desorientada, e com as mãos tremendo tateando seus objetos, abriu a janela, mas nada podia ver. Nem a cor do sol amarelo, nem o verde das árvores, nem o azul do céu, muito menos o vermelho. Apenas a cor preta predominava ao seu redor, de dentro para fora. - Estou eu também fora de minhas faculdades mentais? , se perguntou. O que seria dela sem as cores, se não o preto? Há algum tempo, preferia que isso tudo acontecesse, mas superou. O preto representava o nada, o mistério, com seus olhos fechados, acompanhados de intensificação de outros sentidos. A audição de vozes de esperança, o tato de objetos e corpos, o cheio de sândalo e putrefações; o gosto nenhum. O preto puro, sem nada, o nada, o invisível, a sua cegueira de ver o mundo, pois não tinha outros olhos. Sentiu-se triste. O preto nada mais é que a falta de ver coisas belas e sonhos vitorianos. Nada mais importava naquele momento. As luzes a conduziam e faziam seu corpo expandir de alegria. Penetrou-se em si mesma, pois já não queria mais olhar o nada. Deitou-se com dificuldade, suas lágrimas escorriam quentes em seu rosto, e ao sentir o gosto salgado a fez aliviar-se de suas frustrações do mundo. Fechou os olhos, mas nada havia mudado. Até adormecer e lembrar-se de como as luzes eram tão mais belas de quando ela havia achado que tinha reparado em todos os seus gestos. Então sonhou mais uma vez. 

por mayara freire

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Um mês de escuridão!

Olá a todos,
esse tipo de texto não verão aqui com freqüência (e viva o trema!).
As palavras serão rápidas, prometo.

Há um mês começamos esse projeto com apenas duas pessoas. Mas tínhamos a esperança que pudéssemos seduzir outros a escrever conosco. No segundo dia mais 3 pessoas já se juntaram a nós, e dia após dia hoje já somos 18 autores, num total de 70 postagens, e quase 700 visitas (até ontem!).

Esse espaço nos fascina pela possibilidade quase infinita de invenções e percepções. Me lembro quando vibrei quando o Henrique compôs uma música pra nós, quando fez o primeiro video com Hanny, ou quando Iris (nossa maravilhosa autora compulsiva!) postou suas tirinhas. Que esse espaço continue inspirando as pessoas a pintar como a Lua, e que continue nos surpreendendo!

Nossa ambição é que tenhamos mais e mais autores, que se aventurem nas palavras e além. A escuridão está aberta a todos.

Alguém aí ainda tem medo do escuro?

por Mazé Mixo

LXX


Todos diziam que no dia em que a Escuridão tomou conta do universo, a luz
tinha se apagado depressa, como se tivesse sido roubada.
Ela jurava de pés juntos que não, que a luz tinha se apagado lentamente no
horizonte, até que a escuridão tomasse conta de tudo.
Até na escuridão identificamos os poetas.

por luana pinheiro

LXIX

Abri os olhos, madrugada, provavelmente o mesmo horário de sempre, tirei o cobertor. Ao botar os pés no chão senti um frio na sola de gelar até os fios caídos de meus cabelos... era inverno e tudo parecia calmo... levantei e comecei: três passos à frente, dois à esquerda, esticar os braços à frente... mais vinte e sete passos a diante, cinco à direita... levantar somente uma das tampas do vaso, virar de costas, ir agachando e procurando com as mãos ao mesmo tempo... pronto... estou sentado no vaso para mais uma mijada feito mulher...
Com o final da luz todos os homens passaram a mijar assim... de lá pra cá muita coisa mudou...

por anderson barnabé

LXVIII

Um grupo de jovens se sentou lado a lado para brincar de jogo da verdade. Perguntava quem queria, respondia quem quisesse. Mas Bruthy foi surpreendida pela pergunta que mudaria sua vida: "Quem mais te deixou saudade?" Antes de Bruthy responder, todos foram incomodados por uma fonte de luz que surgiu dali. Era forte e há tempos ninguém sentia esperanças que a luz pudesse voltar.  Aquele brilho imenso durou os segundos que Bruthy teve para enxugar suas lágrimas. Ela não se deu conta do que aconteceu. E fez a próxima pergunta: "Vocês gostariam de que a luz voltasse?" Não houve resposta.

por josé alsanne

domingo, 22 de agosto de 2010

LXVII

O extrato acima foi encontrado por um gravurista que fazia pesquisa nos altos da cidade de Butãtã. A madeira usada ainda não foi identificada, mas acredita-se que o documento não se refere aos anos D.E. (Depois da Escuridão) e sim ao período anterior. Há indícios de que foi entalhada para fins acadêmicos.

por hanny saraiva


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

LXVI

Poema pra quando a luz voltou

Eu não vou para a luz.
Eu prefiro continuar com as luzes apagadas.
Eu prefiro acreditar que nada aconteceu.
Eu prefiro a companhia da vela.
Eu escolho continuar a ver mais estrelas que o normal.
Por que estão gritando?
Meu Deus, isso foi um rojão?
Eu escolho a emoção das formas retorcidas, da
Penumbra, do olhar mais atento ao chão.
Eu escolho o não saber o que se pode encontrar.
Eu prefiro a pupila dilatada.
Eu prefiro o escuro, eu prefiro o negro.
Eu prefiro o risco de ter uma vela em cima da cama.
Eu gosto do bicho papão.

por ana paula lisboa

LXV

Escuridão? Por que não?
Imagina... Que confusão
Vai ser um tal de passar a Mão...
Acho melhor não!

por cíntia monsores

LXIV

por luana pinheiro

LXIII

Quando ele entrou todos gritaram SURPRESA...
Continuaram no breu e o pancadão rolando solto...   

por veruska thaylla

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

LXII

por iris yan

LXI

por iris yan

LX


por iris yan

LIX

por iris yan

LVIII

 
por iris yan

LVII

por iris yan

LVI


Todos estavam sentados no alto do morro. O mestre de todos observava atentamente aquele único pontinho luminoso no céu!

- Mestre, e isso? Como vamos chamar?
- Não se esqueça! Vamos chamar de luz.

por veruska thaylla.

LV

Conseguia ver ainda a luz. Não trombava nas coisas, porque para ele o mundo não havia ficado escuro. Enquanto todas as pessoas pareciam cegas à sua volta, enxergava. Mas como convencê-las disso? Ninguém acreditava no que dizia, porque ninguém mais via. Sentiu-se solitário, como o primeiro fax inventado.
 
por iris yan

LXVII

Na escuridão de seu quarto, Claudio acorda assustado.
- Caralho, Ana! Tive um sonho muito estranho!
Ainda de olhos fechados, sua mulher tenta acalma-lo.
- Calma amor, volta a dormir! Foi só um pesadelo... - Ela abre os olhos, afasta as cortinas e percebe que ainda tá escuro lá fora. Tão escuro que ela nem quis se levantar pra olhar o quintal. - Daqui a pouco amanhece e você tem que ir trabalhar!
- É, mas foi muito estranho!
- Hmm... Me conta, sonhou de novo que eu te traía?... 
- Não, dessa vez foi diferente... Sonhei... que a luz acabava.
- hahaha. Deixa de besteira, eu paguei a conta ontem.
- Não. Eu tô falando de todo tipo de luz. Solar, elétrica... Como se alguém desligasse o disjuntor do universo!
- Besteira, aposto que Deus também paga a conta de luz! - Ela ri.
Ele responde com um sorriso abafado e a abraça, pronto pra voltar a dormir, antes que o despertador toque.
- Tudo bem, vamos dormir... Mas vê as horas pra mim, por favor?
Seguiu-se um longo silencio e, já impaciente, ele cutuca sua mulher e volta a perguntar:
- Ana, as horas?
Ela se senta na cama, fecha as cortinas novamente e responde.
- Onze e onze...
- Ainda? - Ele pergunta, sem acreditar que só estava dormindo há pouco mais de uma hora. 
- Da manhã! - Ela responde.

por helder garóti

terça-feira, 17 de agosto de 2010

LIV

Não havia mais pessoas que tinham medo de escuro.
Simplesmente não sobreviveram às primeiras semanas. 
Foram enfartando e morrendo aos poucos.

Sobraram todas as outras pessoas, que continuaram com medo da vida, numa vaga ansiedade em existir.
 
por iris yan

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

LIII

Achou que economizaria, uma vez que não havia mais conta de luz para pagar.
Enganou-se.
Esqueceu-se de que vivia de gato e que já não pagava a conta da Light fazia tempo.
Continuou pobre, continuou sem dinheiro para pagar o gás no final do mês.
por iris yan

domingo, 15 de agosto de 2010

LII

Sentia algo estranho no ar. Algo lá dentro fazia com que lembrasse do dia em que a escuridão tomou conta de tudo, mesmo passado tanto tempo.
Estava tão tensa que o neto podia sentir aquela mistura de medo e ansiedade. Ela o abraçou e ficaram em silêncio.
Quando a luz começou a entrar pela casa, o neto começou a chorar sem saber o acontecia.
Ela só conseguia beijá-lo, agradecendo aos Deuses pela graça alcançada.

por luana pinheiro

LI

- Nossa Fred, essa história é muito doida...
- Pois é... dizem que a luz vai voltar.
- Mas cara, que negócio é esse de luz? Me explica aí essa parada.
- Eu não sei explicar direito, mas os cientistas dizem que quando a luz voltar, vamos voltar a ver com os olhos!?!
- Ver com os olhos? Meu Deus! Vamos ver com os olhos! Meu Deus...

por luana pinheiro

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

L

Anoushka

Era uma estrada de terra longa e quase infinita. O sol insistia em ir embora e me deixar sozinha. Algumas aves voavam desesperadamente pelo céu que começava, segundo a segundo, ficar cada vez mais escuro. Eu continuei caminhando. Um trovão ali, gotas grossas e frias despencavam do alto. Hoje tinha festa no céu e eu não fui convidada.

A chuva era perfeita e trazia calma. Já não havia nenhuma luz, somente a que eu carregava dentro de mim, mas era suficiente para iluminar o que os meus olhos queriam ver. Olhei pro céu e os deuses dançavam, e seu suor caia na terra seca fertilizando as sementes, brotando luz. Eu fui convidada para a festa. Obrigada Anoushka.

por flor baez

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

XLIX

se vestiu
chapéu, blusão e calça.
conversou, bebeu vinho
tinto suave chileno
saiu pra dançar na tentativa de esquecer a doçura de um outro rapaz, queria nunca mais ver aqueles olhos outra vez.

dançou como se estivesse só
toda a tequila do bar era sua por obrigação
a melhor maneira de não lembrar dele ou de mim – pensou.
quando se viu estava sentado junto de um cão
no meio fio

e em um misto nada sensato de lágrimas e vômito
viu tudo apagar de forma embaçada
acreditou na própria loucura, já que nada parecia tão real
seus restos ele ainda expelia com choros soluçantes que só dava pra se ouvir o som

cambaleou e saiu andando pelo escuro até tropeçar no que parecia ser uma motocicleta
caído no chão ouviu uma voz chegando perto e respirou mais fundo
a voz, doce e atordoada, perguntava:
- você está bem?
ele, ofegante, não via, só sentia:
- estou bem, só não some de mim.
por renan brum

terça-feira, 10 de agosto de 2010

XLVIII

- Está escuro! Acabou o mundo! Vamos, vamos!
- Calma, Alfredinho. Você ainda tem que chupar um pouquinho mais aqui.

por hanny saraiva

XLVII

alguns diziam que era bobagem o que se ouvia na televisão:

hoje é o dia internacional de limpar os olhos. aqueles que estão com imagens permanentes em suas retinas, devem procurar um kit de limpeza no posto de recuperação, o mais rápido possível. não é saudável lembrar.

por hanny saraiva

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

XLVI

- Tudo bem, eu deixo, mas só de luz apagada.
- Pronto. Agora vem aqui, vem.

Os sorrisos dele não se viam.
E ela gozou pela primeira vez.

por mazé mixo

XLV

-Apague as luzes que vamos cantar parabéns!

Apagou-se todas as luzes imagináveis do universo: luz solar, luz elétrica, luz....

E João só conseguia pensar: - Poxa Deus, isso tinha que acontecer no dia da minha
festa?

por luana pinheiro

XLIV

Hoje eu acordei desejando a escuridão e a profundidade do vazio cósmico, mas não consegui. Levantei e disse para o dia: - Dê um rolê! E o rolê veio junto com uma sensação de liberdade e desapego de tudo que foi construído com sacrifício. Joguei tudo que tenho na escuridão sem me importar que pudesse mudar de idéia no cair da tarde. A única coisa que guardei foi a medalha de prata, um presente de uma amiga.
 
Do alto vejo um entulho de tudo que eu fui, com todas as velharias que me acorrentavam e iludiam com sua importância. Dei as costas para a porta e caminhei até o universo com o coração cheio de tags: cabelos desalinhados, mundo livre S.A, Devendra, medalha de prata, fruto, baixo. Mas minha alma chora.
 
por flor baez

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

XLIII

"Eu não vou dar para você nem que a luz volte!" passou a ser uma
expressão comumente usada.
 por iris yan

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

XLII

Patrick, Emanuel e Nadir deixam a sala de exposição interativa de sofás e entram na sala de instalações sonoras onde escutam:

- E agora vai saindo, saindo e líquido, saindo e gargalhante, saindo travisseirístico e peludo. E vira, vira na igreja, vira na caixinha de fósforos, vira na virilha, vira na intenção, vira a noite, vira de costas. Agora está parada, parada de metrô, parada de grafar braille, parada de atropelamento, parada de catalepsia, parada gay. Enfim morre, no dinheiro, de paixão, morre na primeira marcha, morre o assunto, morre de vontade. E tudo sobe, vai subindo e se espalhando, fofocas em prédios, flatos, fogos, fim de tempestade, pipoca, petróleo no fundo do mar, homem-bomba.


Continuam calados e seguem para outra sala do museu.

por henrique de sá

XLI

Nós temos a resposta e se estiver ouvindo essa mensagem, seja lá quem for...
você é a resistência!
por laio c. borges

XL

-Silêncio, eles estão lá fora e podem ouvir muito bem.
-Quem são eles papai? - sussurrou.
-São monstros, ouvi dizer que devoram gente, a escuridão caiu primeiro sobre
eles antes de cair sobre o resto do mundo, eram pessoas frágeis , mas agora são como deuses!
- Como eles se chamam papai?
- Cegos, os chamávamos de cegos...
por laio c. borges

XXXIX

Foi horrível, minha maldição era enxergar, eu não podia tatear, ouvir, falar ou sentir cheiro, porque eu estava atônito, tudo era muito bem iluminado,  aquelas malditas cores eram sedutoras, exaltavam a visão me deixando desesperado, pois faziam com que os outros quatro sentidos não fizessem tanto sentido.

Mas ao acordar em meio à escuridão absoluta, senti cheiro de tabaco, ela estava lá como sempre, tão aromal a beira da cama, eu podia sentir a pele enrugada da sua mão e ouvir sua voz mansa a dizer...

-Acorda, acorda foi só um pesadelo.

por laio c. borges

XXXVIII

Miguel tinha a pele alva como a de um gringo. Mas morava em um sítio invadido em Tinguá. Toda a tarde brincava de pique esconde com sua mãe mulata, de cabelos esvoaçantes. Eles adentravam mata selvagem e se escondiam atrás de árvores sem nomes. Filho único, Miguel achava que segurança era gritar sua matriarca e ser sempre correspondido.

No dia em que tudo ficou escuro, ele estava de short curto e sem blusa. Corria solto tentando encontrar a árvore perfeita. Quando gritou Mãe, a luz se foi. De dentro de seu peito, a palavra repetiu-se desesperadamente. E junto com ela, uma sensação de que precisava correr. A pele cortou-se entre os galhos que o seguravam, o short molhou-se com o orvalho que pingou das folhas. Miguel gritou até ficar rouco. E pela primeira vez, em nove anos de existência, sua mãe não respondeu.

por hanny saraiva

terça-feira, 3 de agosto de 2010

XXXVII

- Tudo isso não passa de uma grande basbaquice, um papo furado! Eu sou sozinho, e daí? Sou sozinho e todos são fantoches do meu bem-estar. Não os entendo nem sei o que pensam, e para mim isso não tem a menor importância. Basta que digam o que me interessa ou me favorece, do contrário, não os escuto. Sou hoje tão egoísta quanto ontem, e ainda estou vivo. Descobri o segredo da longevidade, da auto-satisfação, de gozar rápido por preguiça sem nem se preocupar. E o resto é tão simples como a utopia. O resto eu compro. O fim do mundo é acreditar no amanhã.

por tio goofy

XXXVI

Quando escureceu tudo, como que por instinto meteu a mão no saco. O instrumento ainda estava lá.
"Pelo menos não estou capado," pensou.
E procedeu para a segunda masturbação do dia.

por iris yan

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

XXXV

(na esquina, encostam a mão no akari shouji (estrutura de engenharia civil, paredes de papel) da discoteca japonesa e escutam uma música)

NOVATO PIMENTA
são vozes de edições de gravadoras, de produto musical, não acha? Essas cantoras Pop.

TEREZA ASSIS
não acho

NOVATO PIMENTA
são uquê?

TEREZA ASSIS
acho que são vozes alienígenas gravadas na Rússia e que se reproduzem sobre pixiels

NOVATO PIMENTA
nossa

TEREZA ASSIS
tá na cara que é isso
tão óbvio

por henrique de sá

XXXIV

primeiro houve o caos.
muitos morreram de fome.
outros morreram de medo.
pensaram ser o fim dos tempos. profetas do apocalipse gritavam nas ruas, pregando o suicídio. mas eles próprios não o fariam.
foi alguns dias depois que silenciosamente os agricultores perceberam que as plantas não deixaram de crescer.
cientistas tatearam teorias, e por fim aceitaram que de alguma forma os vegetais conseguiam sobreviver.
o sol ainda era quente, e provia o nutriente invisível para que pudessem continuar sua fotossíntese, que deveria ser rebatizada agora.

houveram sim extinções de muitos animais, mas depois de alguns anos o equilíbrio voltou a reinar.

a vida continuaria.

XXXIII

Quem faturou mesmo foi o dono da empresa que fabricava óculos ultravioletas que viam no escuro (como os óculos usados pelo serial killer no filme "O silêncio dos inocentes"). Nem ele esperava por tamanha interferência divina. A partir daí, todo Natal ele distribuía presentes às crianças nas favelas vestido de Papai Noel (podia ir pelado que ninguém repararia, mas era um homem que gostava de manter a tradição). Era sua forma de agradecer pela sua sorte.

por iris yan

XXXII

Quando a luz acabou, naturalmente os cegos dominaram o mundo. Já estavam acostumados com a escuridão, e bem melhor adaptados. Havia alguns cegos honestos e bons, e outros pilantras. Todo mundo aprendeu a ler e escrever Braille. De resto o mundo não mudou porra nenhuma, porque as pessoas continuaram iguais.


por iris yan

XXXI

"Papai, e como era o mundo quando havia luz?"

"Ah meu filho… o mundo era tão colorido… havia cores diferentes… minha cor favorita era o amarelo."

"O que são cores?"

"As cores são como sons, mas diferentes… você não percebe que existem sons graves, sons agudos, sons leves, sons bonitos, sons feios?"

"Sim, meu som favorito é o da televisão quando ela é ligada ou desligada."

"Então, as cores também eram como os sons, havia uma infinidade delas. É um outro sentido que tínhamos, não sei como explicar. Quando você nasceu já tinha acabado no mundo."

"Uau, que legal! Deve ter sido a melhor coisa do mundo, poder ver cores!"

"Sim, eu também achava que sim… mas segundo seu avô, não."

"O vovô? Por que ele não concorda?"

"Porque o vovô acha que quando acabou a luz, não foi tão horrível quanto quando acabou o metaformolol."

"Metaformolol? O que é isso?"

"Também não sei. Quando eu nasci, já não existia mais. O vovô tentou me explicar mas eu não entendi direito. Você vai ter de perguntar para ele."


por iris yan

XXX

Chegou em casa e sentiu o cheiro de outro homem. Ouviu da sala os gemidos da mulher no quarto. Com cuidado tateou até chegar ao sofá. Sentou-se. Lágrimas silenciosas corriam pelo seu rosto. Não era verdade que o que os olhos não vêem, o coração não sente. Havia outros sentidos. E seu coração sentia, e muito.

por iris yan

XXIX

Quando a luz acabou, José ficou deprimido. Sua mulher não o entendia.
"Mas você é ladrão, Zé, não devia ficar feliz que a luz acabou?"
"Sim… mas agora ficou fácil demais… Eu sou um profissional… qual a graça de roubar alguém nestas condições?"

por iris yan

XXVIII

Quando a luz acabou e tudo era escuridão, pelo menos três pessoas naquele prédio ficaram felizes:
O seu Juca, que já era cego e amargo, amou saber que todos agora estavam na mesma condição que ele. Depois ficou meio preocupado em saber como é que a enfermeira continuaria cuidando dele se ela não ia conseguir diferenciar os seus remédios, mas até ele se dar conta disso já era o terceiro dia de escuridão. Ficou feliz por exatas 56 horas.
A Mariana, que não se sentia mais acanhada e não precisava mais se preocupar em apagar a luz do quarto enquanto transava com Fernando. Por algum motivo, Mariana achou que podia gritar mais alto durante o ato sexual, até Fernando a lembrar de que o fato de não haver luz no mundo não significava que o som não continuava se propagando.
O Fernando, que deu graças a Deus de finalmente poder comer a Mariana de frente, e não ter de colocar um travesseiro cobrindo o seu rosto, pois julgava-a feia e isso o brochava. De corpo ela até que era gostosa e bastava.

por iris yan

domingo, 1 de agosto de 2010

XXVII



por hanny saraiva e henrique de sá

XXVI

dois corpos na cama.
penumbra.
uma luz fraca ao fundo deixava que se visse apenas o contorno do corpo dela, por cima do dele.

dois corpos na cama.
lado a lado, conversaram sobre tempos antigos, sobre lembranças e saudades.
quando ela perguntou seu nome, ele só sorriu.

dois corpos na cama.
fecharam os olhos.
dormiram.
e não houve mais luz.

por mazé mixo