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segunda-feira, 4 de julho de 2011

CXXIII

Conversavam em uma antiga praça. Eram dois.
Não haviam mais bancos, só um velho obelisco e grama fraca nascendo entre as pedras do chão.
Se olharam pouco nos olhos nos minutos que ficaram por ali.
De uma queimada no morro vizinho descia pequenos filetes de mato queimado, voando com o vento.
Ela levantou e foi embora.
As cinzas foram tomando o céu aos poucos, até que não houvesse nada além de escuridão.
Só então ele também se levantou e foi embora.

por mazé mixo

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

CXI

Não há mais luz.
Mas o fogo ainda queima. E mata.

por mazé mixo

CX

Salão do Barbeiro, Subúrbio do Rio de Janeiro.
Samuel, 15 anos, está cortando o cabelo.
No pequeno salão de paredes verdes desbotadas os homens riem, lêem jornal e assistem futebol.
Samuel, suando, segura firme na velha cadeira, tentando não chamar atenção.
O homem aparando seus cabelos aparenta ser mais velho do que seus 41 anos. Tem as mãos grossas e peludas. Na verdade o homem tem pêlos saindo das narinas, das orelhas e da gola da camisa. Cheira a suor azedo e creme de cabelo barato. As mãos, rápidas, deslizam entre os fios, firmam o pente, picotam com a tesoura, enquanto os olhos fogem para o televisor e para as pernas cruzadas da mãe de Samuel, sentada atrás.
A mãe, de saia curta, sorri impaciente.
Samuel sua ainda mais quando vê o homem deixar a tesoura de lado e preparar a espuma para terminar seu trabalho.
São 3 horas da tarde. Um dos times faz um gol. O homem desliza a espuma próxima à orelha do rapaz, que aperta ainda mais os braços da cadeira. A mãe levanta para buscar um copo de água e tem seu corpo seguidos por todos os olhos. A espuma agora chega à nuca de Samuel, que respira fundo. Um dos homens repara no nervosismo do rapaz. A mãe senta-se novamente. O barbeiro começa a deslizar a lâmina pela espuma. Os pêlos de Samuel enrijecem devagar, seu corpo estremece com as mãos firmes em sua nuca. Mais um gol, do time adversário. O rapaz sente calor, e geme baixinho enquanto os homens gritam com a televisão. A luz se apaga dentro do pequeno estabelecimento. A luz se apaga lá fora. A luz se apaga em todo lugar. As mãos firmes do homem na nuca do rapaz. As mãos do rapaz no seu próprio sexo. As mãos de alguém nas pernas da mulher. Entre a desorientação geral o jovem sorri aliviado, limpa-se e vai embora.

por mazé mixo

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

CII

Vou te contar uma estória.
Chega aqui, mais perto do fogo, mas cuidado, nesses noites de vento gelado o fogo pode te queimar sem você perceber.
Pois bem. Eu tinha 27 anos naquela época. Morava numa cidade e ia trabalhar em outra, bem maior e movimentada.
As ruas eram cheias de gente, que andavam apressadas de um lado pro outro. E os vendedores ambulantes vendiam de tudo nas ruas. Mesmo correndo pra não me atrasar eu tinha tempo de admirar os prédios enormes e espelhados. Era tudo muito bonito.
E eu achava que ia ficar rico, ser um daqueles executivos com carros novos e motoristas e secretárias loiras e notebook a tiracolo. Era ingênuo e irresponsável. Não era ainda o homem que sou.
Foi numa manhã chuvosa que encontrei aquele homem. Eu andava apressado, pois já estava atrasado. Me lembro da cena. Olhei pra frente, vendo todo aquele mar humano seguindo a mesma direção que eu. E naquele mar de repente esse homem parou, virou de costas e ficou me olhando. Continuei andando, e ele continuou parado, olhando pra mim. Quando cheguei perto, fui me desviar, mas ele me barrou a passagem, sempre olhando em meus olhos. E os olhos dele eram tristes, estáticos, como se não tivesse expressão. Você nem deve se lembrar como os olhos das pessoas conseguem dizer sobre elas...
Ele me disse: "Cuidado com suas escolhas". Eu falei pra ele sair da minha frente, e continuei andando. Já alguns passos depois eu olhei para trás, e ele continuava parado, olhando em minha direção com aqueles olhos tristes, enquanto dezenas de pessoas passavam por ele. Fiquei um pouco assustado, mas continuei em frente.
Cheguei em frente ao grande prédio de janelas espelhadas onde trabalhava, e bem na porta havia um vendedor ambulante, com sua pequena barraca de madeira montada, com várias bugigangas indecifráveis. Mesmo atrasado eu parei para olhar
Havia um pinguim-anão, uma vela e uma canção escrita em letra cursiva. O vendedor tinha a mão manchada com pintas avermelhadas e duas verrugas não muito salientes. Ele não me olhou nos olhos. Seu olhar estava fixo nos objetos que eu observava.
É de uma ilha dos mares austrais, ele disse segurando o pescoço do pinguim - Ele pode te mostrar a casa, mas não vai te mostrar o número, continuou ele alisando as asas atrofiadas da ave. O pinguim tinha os olhos marejados. Pude ouvir de dentro dele ‘Cada escolha é uma consequência jogada no mundo e consequências são como bocas de leão.’
Me assustei e pisquei mais rápido que o normal . Quando percebi o vendedor estava a acender a vela. Quis dizer não, não, por favor não acenda, mas o pavio curto foi mais rápido que as palavras. A mãe dele havia lhe presenteado com uma vela azul e ele levou para lá por respeitar os mais velhos. A vela vai te guiar, ele disse que ela disse, vai te mostrar a ter paciência, mas também vai te confundir com o bruxulear. Vai te fazer nomear o que você acha que é alegria, o que é tristeza, o que é necessidade e o que é superficial. Mas nada disso será real.
Eu poderia ter apagado a chama com os dedos, mas o vendedor assoprou e a enrolou em um pedaço de jornal assim que peguei o papel, com letras tremidas escritas de forma rápida.
Essa é a canção pra sua vida, ele disse.
Eu dei uma risadinha de boca fechada.
Você vai escrever e reescrevê-la, mas tudo o que você precisa saber está aí, ele continuou. 
Não tem nome, retruquei ironizando. 
Você dá nome a sonhos quando acorda? – ele perguntou sério.
O vendedor ambulante colocou na mesma sacola a vela e o papel com a canção. O pinguim ele hesitou um pouco. Era nítido que o animal despertava afeição.
Me pague quando sair de sua mesa, quando suas gavetas estiverem cheias e sua vida for mais do que dor de cabeça – ele me disse colocando o animal gordurento sobre meus braços. O pinguim quase caiu, mas eu consegui fazer uma concha pra que ele não despencasse.
Se você não suporta tudo que carrega em você, por favor, saia de fininho. Não faça besteira nem grite, gosto de quem fala sem se alterar.  
Eu dei apenas dois passos para trás.
A vida continuou. Eu cresci dentro da firma, me tornei um dos diretores. Conheci uma bela mulher e tive um filho. Tudo parecia bom para mim. 
Cuidei da pequena ave, que engordou mas nunca perdeu a tristeza no olhar. 
A vela acendi 4 vezes, e tive respostas pra minhas perguntas. A última resposta foi que era eu mesmo quem deveria responder a todas as perguntas.
O papel com a música eu nunca abri, nunca tive coragem de ler. Talvez devesse ter lido, talvez tivesse sido diferente.
Como dizia, foi quando tudo estava bom como nunca para mim que encontrei aqueles dois homens novamente. O primeiro me veio em sonho. Disse que todas as escolhas que tinha feito teriam repercussão em breve, mas que a próxima seria a crucial. Ele me dizia isso boiando de braços abertos numa pequena piscina daquelas de plástico, sabe? Eu não podia levar à sério num sonho falando de escolhas pra mim numa piscininha de plástico, podia?
Não podia mas devia...
Aquele dia parecia outro dia tão normal como o do primeiro encontro, apesar do sonho, que a essa altura já estava em processo de esquecimento. Estava descendo do carro, no estacionamento do prédio da empresa, quando percebi uma figura esguia me esperando.
-Vim cobrar sua dívida.
- Eu não te devo nada. Tudo que conquistei foi por meu esforço! 
- Vim cobrar sua dívida.
- O que você quer? - perguntei a ele.
- Você tem uma escolha. Ou vem comigo, ou não vem comigo.
Apesar de não entender o que acontecia, eu fui tomado por um grande medo. Aquele homenzinho não havia levantado a voz, nem tido qualquer outra expressão, mas tive medo dele. Voltei pro carro correndo e acelerei, passando por cima dele. Olhei pelo retrovisor e vi aquele corpo pequeno no chão. Fui tomado por um medo ainda maior, que me imobilizou por alguns segundos. Mas voltei. Saí do carro e corri até ele, que não parecia estar ferido.
- Pensei que não fosse vir.
Então seus olhos se tornaram negros, e as luzes do estacionamento se apagaram, e a luz do sol lá fora foi ficando mais fraca, e mais fraca, e mais fraca, até tudo se tornar escuridão.
Foi assim que aconteceu. Foi tudo culpa minha.

Mas quem você acha que ele era? Deus? O coisa-ruim? E por quê a luz acabaria por sua causa?

Acho que não, pequeno. Não acredito nessas coisas. E nem sei porque a consequência do meu erro foi tão ruim. Nem sei qual foi o erro, na verdade. Mas foi culpa minha. Tudo isso. Mas hoje eu tive um sonho. Uma voz que nunca vou esquecer me disse que em breve eu terei outra chance.
E dessa vez eu não vou errar. Não vou não.

por mazé mixo e hanny saraiva

terça-feira, 12 de outubro de 2010

domingo, 12 de setembro de 2010

LXXXVI

- Johnny, quem disse que não posso ir até a caixa-d'água? Eu não sou mais criança
- Voce nao eh mais criancca mas a escuridao nao te fez menos cega, boba...
- Acontece que agora o nível de perigo da caixa d'agua fica igual pra todos e o Johnny enxerga tanto quanto eu...
- Johnny o caralho, meu nome é Zé Pequeno!

por anderson barnabé, hanny saraiva, iris yan e mazé mixo

sábado, 11 de setembro de 2010

LXXXV

Sete de setembro.
A voz do presidente soava potente nos alto-falantes, pras pessoas acreditarem que ele estava lá.
- Graças à nossa política de incentivo à pesquisa alcançamos o primeiro lugar em produção de inteligência escura. Em Viçosa foi desenvolvido o atual sistema de agricultura escura adotado pelas sete principais economias da América Latina. A USP realizou o primeiro transplante de órgãos, onde hoje já alcançamos mais de cem mil cirurgias escuras apenas no sudeste - .

Eu não aguentava mais, fechei a janela do apartamento e fui me vestir.
Na atual conjuntura do país, eu demorava a acreditar que ele estava falando de inteligência, agricultura e cirurgias. Lembrei de uma frase que ouvia sempre da minha bisavó: 
- Meu filho, quando havia luz, eles eram exatamente assim. Não mudou nada. Mesmo no escuro eles continuam os mesmos. Político é político com ou sem luz. 
Acabei de me vestir e fui contando os passos até o elevador.
Depois dos de sempre, 32 passos, cheguei ao elevador! Desci os 4 andares pensando "como seria enxergar com os olhos?" isso sempre me parece muito estranho. Enfim, mudei de idéia fui até onde estava o nosso mais competente presidente, sua voz firme e que expressava confiança, dominava o local! Do meio da escuridão e do silêncio uma voz surge em tom de grito fazendo uma pergunta "Senhor presidente? Senhor Presidente me dê a palavra..?..Senhor..." Sem sucesso, desisti da pergunta e de ser um cidadão "atuante". Dois anos depois descobrimos que naquele Sete de Setembro, aquele bonito discurso do presidente não se passava de uma gravação! Foi a maior crise da escuridão até hoje. 

por henrique de sá, luana pinheiro, mazé mixo e veruska thaylla

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

LXXXIII

Meu nome é 說書人.
Faz 34 anos que cuido sozinho do templo. Sou o trigésimo nono guardião.Quando o próximo guardião vier, estarei finalmente no sopé do Grande Portão Branco.
Fiquei cego há 3 semanas. No momento em que meus olhos me falharam vários animais choraram no bosque ao longe. Como se soubessem de minha perda. Ou como se tivessem perdido algo também.
Desde então minha rotina não mudou muito. Acordo, faço minha meditação até a hora de cuidar das plantas, me alimento, medito novamente e vou dormir.
Até em meus sonhos continuo cego. Ou ao menos no que penso serem sonhos. Ouço conversas, vozes de outros cegos. Loucos que dizem que a luz do mundo se foi. Sonhos estranhos.
Não me lembro mais das pessoas, só de meu pai e de meu mestre.
Fico aqui, esperando meu tempo, cumprindo minha missão.
Esperando a passagem pelo Grande Portão Branco.
Espero conseguir vê-lo quando chegar até lá.

por mazé mixo

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

LXXX

Era uma quarta-feira quando El-Rei Dom Sebastião finalmente regressou. Desceu de sua majestosa carruagem em pleno sertão de Pernambuco. Era o ano 3 da Escuridão. Ainda juntou um bando de homens e mulheres maltrapilhos e fundou Nova Lisboa. Mas tanta espera foi em vão, logo morreu de gripe suína.

por Mazé Mixo

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

XLVI

- Tudo bem, eu deixo, mas só de luz apagada.
- Pronto. Agora vem aqui, vem.

Os sorrisos dele não se viam.
E ela gozou pela primeira vez.

por mazé mixo

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

XXXIV

primeiro houve o caos.
muitos morreram de fome.
outros morreram de medo.
pensaram ser o fim dos tempos. profetas do apocalipse gritavam nas ruas, pregando o suicídio. mas eles próprios não o fariam.
foi alguns dias depois que silenciosamente os agricultores perceberam que as plantas não deixaram de crescer.
cientistas tatearam teorias, e por fim aceitaram que de alguma forma os vegetais conseguiam sobreviver.
o sol ainda era quente, e provia o nutriente invisível para que pudessem continuar sua fotossíntese, que deveria ser rebatizada agora.

houveram sim extinções de muitos animais, mas depois de alguns anos o equilíbrio voltou a reinar.

a vida continuaria.

domingo, 1 de agosto de 2010

XXVI

dois corpos na cama.
penumbra.
uma luz fraca ao fundo deixava que se visse apenas o contorno do corpo dela, por cima do dele.

dois corpos na cama.
lado a lado, conversaram sobre tempos antigos, sobre lembranças e saudades.
quando ela perguntou seu nome, ele só sorriu.

dois corpos na cama.
fecharam os olhos.
dormiram.
e não houve mais luz.

por mazé mixo

sexta-feira, 30 de julho de 2010

XXV

B: - 5124-0016. Ligar.
Mateus: - Alô?
B: - Oi, Mateus.
Mateus: - Oi. Você já fez?
B: - Fez o quê?
Mateus: - Idiota...
B: - Olha, só to ligando porque ela insistiu muito.
Mateus: - Sei.
B: - Ela descobriu.
Mateus: - Porra, caralho, você é idiota? Por que você contou?
B: - Ela viu.
Mateus: - Viu como?
B: - Ah, você entendeu!
Mateus: - Calmaí.

(Mateus toca no poste à sua frente e uma voz diz “Você está na rua 180. Pra onde deseja ir?)

Mateus: - Cavaleiro das Trevas.

(A voz repete 3 vezes: “Beco sem saída”)

Mateus: - Você tem 10 minutos pra chegar lá.
B: - Nas Trevas?
Mateus: - Vai me devolver toda a porra agora.
B: - Mas ela...
Mateus: - Esquece ela. Sai daí agora! Não quero que você mostre mais.

(B. aperta um interruptor e o andar inteiro onde se encontra desce. Ele carrega uma caixa grande de palitos de fósforo.)

(Cavaleiro das Trevas Rock Bar: Mateus e B. se encontram numa grande sala. As paredes são azuis.)

Mateus: - Fudeu. A gente tem que se livrar dela.
B: - Ai, cara...
Mateus: - Se ela espalhar, vai ser o caos.
B: - Por causa de uma migalha de FAÍSCA?
Mateus: - Você esqueceu o que uma migalha dessa merda faz, gênio?
B: - Tá, eu mato ela. Mas ela chupava tão bem...

por mazé mixo e hanny saraiva

XXIV

sentia-se livre. após tantos anos, sentia-se livre. continuou andando, e ao esbarrar num banco de concreto, se deitou.
sorriu enquanto deitava-se. ninguém viu ele morrer.

por mazé mixo

segunda-feira, 26 de julho de 2010

XIII

voava entre nuvens verdes com cheiro de groselha, bem mais alto que os cumes mais altos das montanhas mais altas. a seu lado flutuava uma orquestra de sapos desafinados, que a faziam rir e soltar bolhas de sabão de erva-doce entre soluços.
num piscar de 3 olhos já estava debaixo d`água, segurando as longas barbas de uma sereia-gigante entre corais que lhe sorriam e peixes-palhaço tristonhos com chapéu côco. poder respirar naquele lugar nem lhe causou surpresa, pois desde que se entendia por gente passeava por ali. quase toda noite.
foi quando caminhava numa grande biblioteca que viu uma pequena lâmpada apagando aos poucos num corredor. então todas as outras luzes se apagaram, enquanto aquela primeira lâmpada ainda resistia, piscando lentamente. tentou correr até ela, mas quando se aproximou, sentiu-se caindo num grande precipício.
acordou no chão, ao lado da cama.
por mazé mixo

sábado, 24 de julho de 2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010

III

lavava roupas.
já tinha terminado com as meias de dedinhos e um grande cachecol azul quando tudo à sua volta escureceu.
levou as mãos ensaboadas aos olhos, que arderam. mas a dor foi menor perto do susto, dos gritos que surgiam de todas as partes.
as pessoas pensavam estarem todas cegas.
mas não. foi somente a luz do mundo que se desfez.

por mazé mixo

I

e disse o Senhor: desfaça-se a luz, e a luz se desfez.

ao mesmo tempo apagaram-se as luzes elétricas, os fósforos e as estrelas.
os vagalumes deixaram de piscar, o Melanocetus johnsonii perdeu seu truque luminoso, as algas e o krill pararam de brilhar.

joana estremeceu em sua cama.
a luz do banheiro que entrava pela fresta de sua porta se apagara de repente.
desde que era criança ela não conseguia dormir no escuro, com medo de monstros e estupradores furtivos. agora, aos setenta e seis anos ela ainda não se curara das manias nem dos temores antigos.
tudo estava às escuras em sua casa, que tinha ao menos o dobro de sua idade. ela levantou da cama, tateando as paredes, tropeçando em algo grande e sólido.

no meio de um parque de uma grande cidade de um país qualquer uma mulher dava à luz, às escuras. chorava e gritava de dor e medo. achava ter ficado cega, pois não só as luzes dos postes haviam se apagado, mas também a lua cheia e as estrelas não mais brilhavam.

casais continuaram se beijando nos cinemas, mais tantos outros continuaram trepando debaixo dos cobertores. outros continuaram dormindo, sonhando com dias ensolarados. os jornalistas pediam desculpas aos telespectadores pela falha técnica, mas logo descobriram que o apagão era mundial.

- vou te chamar lúcia, disse a nova mãe à pequena, envolta em sangue e escuridão.
nasceu de olhos abertos.

por mazé mixo