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quarta-feira, 29 de junho de 2011

CXXII


Ela começou a se dar conta da falta de imagens .
Agora, ela não ama mais ninguém. Eles não são mais quem eram.
Deixou de amar filho, marido, amigos.
E se foi, catando pedras ao longo do caminho escuro.


por luana pinheiro

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

LXXXVIII

Lúcifer, o primeiro dos caídos, depois de dois bilhões de anos sendo o Chefe do Inferno, decidiu se aposentar. Estava cansado daquilo tudo. Sabia que nunca mais voltaria ao Paraíso. Sabia que sua revolta contra Ele nunca seria perdoada. Sabia apenas que queria outra “vida”.
Depois de ter mandado todos os demônios e almas penadas “às favas”, trancou o principal portão do inferno à chave, pegou emprestado o punhal de um demônio e ficou esperando seu convidado de honra aparecer.
Morpheus apareceu e fez o que Lúcifer lhe pedia. Cortou-lhe as asas a muito sem a inocência dos anjos e ficou de guardião da chave infernal, até que alguém se prontificasse a cuidar do inferno outra vez.
Lúcifer havia esquecido que era o portador da Luz Divina. Lúcifer acabou com a Luz do universo. Aos olhos Dele, essa foi a verdadeira revolta de Lúcifer. A primeira já era esperada, tinha sido planejada. Essa Ele não tinha como resolver. Estava decretado o Fim dos Tempos.

por luana pinheiro

domingo, 12 de setembro de 2010

LXXXVII

Uma menina andava todos os dias pelos túmulos do Cemitério Bom Retorno, situado na Vila de Três Corações, dizendo que a luz iria acabar. As pessoas que passavam, na maioria das vezes já abaladas pelas circunstâncias da vida, ficavam assustadas com uma menina tão pequena andando por ali sozinha e principalmente dando uma notícia daquelas. Ninguém sabia seu nome, nem quem era sua família, mesmo aquele todos conhecendo todos naquela vila.
No dia do enterro de Seu João, homem idôneo, 65 anos, casado, pai de quatro filhos, dono do sacolão da Vila de Três Corações, a menina acompanhava o cortejo, calada. Todos entraram no cemitério esperando que a menina dissesse alguma coisa. Nada, ela continuava calada.
A viúva de Seu João, já triste por conta do falecimento de seu amado marido, começou a ter “piripaques”, achando o silêncio da menina um mal pressagio.
No momento em que os coveiros abaixavam o caixão, a menina gritou: -É agora!
A Escuridão tomou conta de tudo bem depressa. A viúva desmaiou, os coveiros não sabiam se largavam o caixão ou se continuavam segurando, a parentada toda saiu correndo desesperada.
A mãe da menina gritou lá do portão do cemitério: Luiza, aprontando outra vez menina! Já pra casa, bora!
Ela respondeu: Tô indo mãe!
E saiu andando, sem pressa, em direção a porta do cemitério como se continuasse enxergando todo o caminho.

por luana pinheiro

sábado, 11 de setembro de 2010

LXXXV

Sete de setembro.
A voz do presidente soava potente nos alto-falantes, pras pessoas acreditarem que ele estava lá.
- Graças à nossa política de incentivo à pesquisa alcançamos o primeiro lugar em produção de inteligência escura. Em Viçosa foi desenvolvido o atual sistema de agricultura escura adotado pelas sete principais economias da América Latina. A USP realizou o primeiro transplante de órgãos, onde hoje já alcançamos mais de cem mil cirurgias escuras apenas no sudeste - .

Eu não aguentava mais, fechei a janela do apartamento e fui me vestir.
Na atual conjuntura do país, eu demorava a acreditar que ele estava falando de inteligência, agricultura e cirurgias. Lembrei de uma frase que ouvia sempre da minha bisavó: 
- Meu filho, quando havia luz, eles eram exatamente assim. Não mudou nada. Mesmo no escuro eles continuam os mesmos. Político é político com ou sem luz. 
Acabei de me vestir e fui contando os passos até o elevador.
Depois dos de sempre, 32 passos, cheguei ao elevador! Desci os 4 andares pensando "como seria enxergar com os olhos?" isso sempre me parece muito estranho. Enfim, mudei de idéia fui até onde estava o nosso mais competente presidente, sua voz firme e que expressava confiança, dominava o local! Do meio da escuridão e do silêncio uma voz surge em tom de grito fazendo uma pergunta "Senhor presidente? Senhor Presidente me dê a palavra..?..Senhor..." Sem sucesso, desisti da pergunta e de ser um cidadão "atuante". Dois anos depois descobrimos que naquele Sete de Setembro, aquele bonito discurso do presidente não se passava de uma gravação! Foi a maior crise da escuridão até hoje. 

por henrique de sá, luana pinheiro, mazé mixo e veruska thaylla

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

LXXIX

Tudo se apagou. Caos total.
Mortes, desespero, saques.
Semana 1.
Mês 1.
Ano 1.
Ano 2.
Ano 10.
Ano 1000.
Ninguém mais se lembra de nada.
D: E eles achavam que não conseguiriam viver sem ela.

por luana pinheiro

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

LXX


Todos diziam que no dia em que a Escuridão tomou conta do universo, a luz
tinha se apagado depressa, como se tivesse sido roubada.
Ela jurava de pés juntos que não, que a luz tinha se apagado lentamente no
horizonte, até que a escuridão tomasse conta de tudo.
Até na escuridão identificamos os poetas.

por luana pinheiro

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

domingo, 15 de agosto de 2010

LII

Sentia algo estranho no ar. Algo lá dentro fazia com que lembrasse do dia em que a escuridão tomou conta de tudo, mesmo passado tanto tempo.
Estava tão tensa que o neto podia sentir aquela mistura de medo e ansiedade. Ela o abraçou e ficaram em silêncio.
Quando a luz começou a entrar pela casa, o neto começou a chorar sem saber o acontecia.
Ela só conseguia beijá-lo, agradecendo aos Deuses pela graça alcançada.

por luana pinheiro

LI

- Nossa Fred, essa história é muito doida...
- Pois é... dizem que a luz vai voltar.
- Mas cara, que negócio é esse de luz? Me explica aí essa parada.
- Eu não sei explicar direito, mas os cientistas dizem que quando a luz voltar, vamos voltar a ver com os olhos!?!
- Ver com os olhos? Meu Deus! Vamos ver com os olhos! Meu Deus...

por luana pinheiro

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

XLV

-Apague as luzes que vamos cantar parabéns!

Apagou-se todas as luzes imagináveis do universo: luz solar, luz elétrica, luz....

E João só conseguia pensar: - Poxa Deus, isso tinha que acontecer no dia da minha
festa?

por luana pinheiro

sexta-feira, 30 de julho de 2010

XXII

Desde que se conheceram quando entraram na faculdade, as duas já se olhavam de
maneira diferente, sem entender exatamente porquê. Uma era noiva há três anos,
a outra tinha um namorado super descolado de quem ela gostava bastante. No dia
que acabou a luz, no mundo inteiro, elas estavam no meio da aula de Estatística e
enquanto a primeira reação de todos foi de gritar, correr e se desesperar, a delas foi de
ir calmamente uma de encontro à outra, como se ainda se enxergassem, começaram a se
abraçar, se beijar. O resto foi o resto, o de sempre, o que a gente já conhece.

por luana pinheiro

XXI

Ela abriu o olho pela primeira vez aquele dia às 8 da manhã, sem conseguir saber a
hora exata e não entendeu porque não enxergava. Pensou estar sonhando e adormeceu
outra vez. Acordou mais três vezes até se dar conta de que era manhã, mas não era dia.
Foi até o interruptor e tentou acender a luz elétrica, sem sucesso. Sem entrar em pânico
e agindo como se aquilo tivesse acontecido outras milhões de vezes, saiu do quarto
tateando até a sala, abriu a porta da rua e gritou: - Deus, faça o favor de acender as
luzes, por favor, que eu preciso ir trabalhar?
por luana pinheiro