domingo, 18 de setembro de 2011

CXXVI


Os gritos ecoavam, carregados de horror, não precisava de luz para saber que a feição de todos ali se configuravam em medo, perdição.
O Vale da Dor, era assim chamado aquele lugar..Onde outrora era uma praça movimentada..Hoje era situada pelos fantasmas daqueles que foram felizes, todos pareciam se encontrar em lamento.  Trombadas, quedas e gritos, era rotina.
Como pode uma escuridão parecer mais escura do que a outra ? Talvez quando a escuridão já está dentro de nós, eis então a maior escuridão, a que apaga a luz da esperança e substitui pela  fumaça da dor.
Naquele lugar as pessoas eram assim, as pessoas do tal Vale da Dor.”

por lucas lopes corrêa

terça-feira, 13 de setembro de 2011

CXXV

Ali Madê estava sentada
Vendo a vida passar
O céu azul e a luz entrar pela fenda na janela
Já havia ouvido música
Viu as cores do tapete, tons felpudos
E das velas na mesa, como derretiam
Ela não notou a textura da almofada
- Assim é ver com os olhos - pensou.
A sua beleza no espelho era crua, dessas nunca tocadas.
Madê assistia ao mundo com os olhos nus de qualquer escuridão
No duo em escuro e claro, acordou num bocejo
E ninguém viu, obviamente.
por renan milezi

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

CXXIV

Peguei papel e caneta, e rabisquei o sol.
Repentinamente, tudo escureceu.
Esfreguei os olhos,  olhei ao redor. Nada. Ainda estava escuro.
Apertei as pálpebras, pisquei rápido várias vezes. Nada.
Recebi um telefonema, era meu irmão, aos prantos.
Não, ele não tem medo de escuro. Só do futuro.
E ainda temos.

por elaine esteves

segunda-feira, 4 de julho de 2011

CXXIII

Conversavam em uma antiga praça. Eram dois.
Não haviam mais bancos, só um velho obelisco e grama fraca nascendo entre as pedras do chão.
Se olharam pouco nos olhos nos minutos que ficaram por ali.
De uma queimada no morro vizinho descia pequenos filetes de mato queimado, voando com o vento.
Ela levantou e foi embora.
As cinzas foram tomando o céu aos poucos, até que não houvesse nada além de escuridão.
Só então ele também se levantou e foi embora.

por mazé mixo

quarta-feira, 29 de junho de 2011

CXXII


Ela começou a se dar conta da falta de imagens .
Agora, ela não ama mais ninguém. Eles não são mais quem eram.
Deixou de amar filho, marido, amigos.
E se foi, catando pedras ao longo do caminho escuro.


por luana pinheiro

terça-feira, 22 de março de 2011

CXXI

Durante todo o processo de concepção se cansava,mas sorria, pois sua vontade de ver pessoas boquiabertas, 
sentindo palavras, descobrindo sensações, comentando prosa, experimentando a contemporaneidade do ser, o tranquilizava.  
Alguns meses passaram e a luz ainda estava ativa, pedindo para ir, pedindo para descansar, mas nada acontecia. 
A resposta da sua vontade veio em um simples telefonema. Dentro de si fogos de artifício. Ele tinha conseguido. 
Viu-se uma casa grande, amarela clara, ser tomada por uma sombra leve em plena luz do dia.

por elaine c esteves

CXX

Pelo limo que fica no canto de cada parede, ele acha que escorrega. Há tempos ninguém limpa nada. Há tempos ele soltara da mão da esposa e há tempos ele não fala com ninguém. Alguém comera o braço dela. Um outro devorara sua costela. Ele, instintivo, não fizera nada. Culpara a escuridão por não se mexer quando ela gritara seu nome e sobrenome achando que ele se confundira quando não foi ajudá-la. Ele ouviu quando quebraram os ossos dela e quando o cheiro de carne ficou em suas narinas por dias. Pois ele também usou da carne dela e a espalhou por seu corpo para que eles não pudessem pegá-lo. Ele dissera que a amava. E foram as gorduras dela que o alimentaram por semanas.
por hanny saraiva

CXIX

Percebeu a escuridão quando seu amor tocou seu ombro e disse: acabou.

por elaine c esteves

quinta-feira, 10 de março de 2011

CXVIII

Bombay é seu nome, é negro, gordo e tem olhos claros.
Caminha lentamente movendo o corpo na direção contrária de suas orelhas.
Observa a confusão de pessoas no tateado do ar cego.
Passa a língua nos lábios.
Atravessa o caminho na frente de alguns.
Escala um muro alto e mia.
Triunfado de que ninguém pode mais descriminá-lo, nem desviar-se dele. 


por elaine c. esteves


CXVII

O mundo dele era obscuro, e quanto mais eu me aproximava daquele ser, ia cegando.  
Quando a escuridão se fez, ele perdeu todo resto de compaixão que tinha por si, e eu cega, o fazia comer na minha mão.


por elaine c. esteves

sexta-feira, 4 de março de 2011

CXVI

Suspenso por duas cordas que findavam o teto roxo, o pequeno caldeirão
borbulhava, já tragado de uma fumaça densa que insistia em dançar no ar,
as mãos que flutuavam nela faziam um movimento circulatório e uma voz
ecoou:

Eis aqui sua filha, filha da terra,
fruto de vosso anseio,
pra dispor minha alma a sua grandeza
e fazer revelar tua divindade
pra esse feitiço não mais singular,
venho a te evocar,
a pedido da escuridão propagar e sob o universo raiar.

Buuffft.

por elaine cristina esteves

CXV

e então tudo escureceu

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

CXIV

Me fez fechar os olhos sem pedir, pra mergulhar na escuridão do
descobrimento de seu corpo.

Entrei nos emaranhados dos seus cabelos claros, sentindo uma atração
cósmica que fazia minha cintura ter movimentos circulares ainda
tímidos, quando senti seu corpo se aproximar do meu e sua boca
sussurrar em meu ouvido. Minhas mãos foram guiadas a parte mais íntima
de mim mesma, era um mar e tesão súbito. Virei-me na cama, ficamos
frente a frente dividindo o ar quente que estava nos cercando. Levei
minha mão até minha boca, era doce como nunca, era quente... depois
dividi com ela.
Me invadiu, entrou dentro de mim quando me encarou, como se me
desafiasse, brincando de amor. Foi a primeira vez que me vi. 
De olhos fechados, mergulhei naquela gruta do amor sem fim, com o gosto
do seu tesão na minha boca. Não era mais possível escutar a casa, as
pessoas, o cachorro, nem a música, só sua respiração, seus gemidos e
meu desejo. Estava molhada de ter ela. Vesti sua pele, penetrei o mais
fundo possível no seu sexo, uma flor gostosa e farta, entregue, plena!
Minha excitação foi ao teto com o que ela falava, o jeito como ela se
mexia, o tom da voz, as mãos dela em mim, minha língua nela, nosso
sexo.

  Quando abri os olhos, não abri. Não conseguia enxergar mais seu
rosto, estava tudo escuro, logo pensei " ela me fez fechar os olhos,
mesmo sem pedir.. e eu mergulhei na escuridão não só de seu corpo, mas
também de seu mundo".
por Clara Montparnasse

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

CXIII

Mesmo quando havia luz, alguns homens já conheciam as sombras.
É o caso de Paolo Pedro, 40 anos:
“Não se tratava de pacto com o diabo ou de prática de magia negra. Muito menos de cegueira. Era só uma escolha. Uma opção. Enquanto quase todo mundo buscava algum tipo de iluminação, quer dizer, enquanto a maior parte das pessoas queria a luz, eu ia na contramão e me aventurava pelo labirinto escuro.”
Paolo era artista plástico e viveu a “Era da Luz” das artes visuais:
“Naquela época o mercado das artes estava muito, muito aquecido. As obras atingiam valores estratosféricos. Mas eu não ganhei dinheiro. Meu trabalho era considerado soturno demais pelo mercado. E eu nunca consegui me vender.”
Paolo se vangloria de ter sido um artista marginal, que conheceu a mais profunda escuridão em busca de um conceito estético singular:
“A idéia era construir pontes do meu inconsciente para o meu consciente. Explorar minhas sombras visceralmente. Sei que muitos estetas acreditam que o paraíso está do lado de fora, à orla do nosso próprio pensamento. Mas pra mim nunca foi assim. Não é. O período que passei na cadeia e, logo depois, minha experiência como morador de rua, me fizeram ter certeza.”
Poucos anos antes do Blackout Global, Paolo encontrou o que buscava:
“Então eu cheguei ao centro do meu labirinto. E eu não podia voltar. Era tão escuro que eu percebi que era impossível construir qualquer passagem dali para a luz. Porque, de certa forma, aquela escuridão era, à sua maneira, a própria luz.”
Hoje, Paolo é um dos guias mais procurados por quem precisa se encontrar em meio às trevas:
“Mesmo depois de anos de escuridão, muitas pessoas me procuram querendo que eu as guie de volta pras suas casas, pros seus trabalhos, pros seus carros, até pras suas agências bancárias. Algumas querem voltar pras suas famílias. Continuam loucas. Pra elas, minha resposta é sempre a mesma: não sou esse tipo de guia.”
E Paolo Pedro conclui:
“O que mais gosto no Blackout? Primeiro, a ausência do sol. Amanhã não será um novo dia. A esperança não renascerá. E eu também adoro presenciar a decadência do bom-mocismo que imperava na sociedade da luz. Eu sempre soube que seria assim.”     

por henry g.

domingo, 23 de janeiro de 2011

CXII

Alguns dias depois, não havia mais cheiros. Foi-se a necessidade do olfato
Alguns meses depois, as pessoas não tinham mais tato (não que muita gente tivesse antes - mas quem tinha, perdeu).
Só sobrou mesmo a audição e o paladar. As pessoas se resignaram a lamber os ouvidos uns dos outros e a grunhir.
Puxa vida, essa crise econômica, hein, pensaram muitos.

por iris yan