segunda-feira, 9 de agosto de 2010

XLV

-Apague as luzes que vamos cantar parabéns!

Apagou-se todas as luzes imagináveis do universo: luz solar, luz elétrica, luz....

E João só conseguia pensar: - Poxa Deus, isso tinha que acontecer no dia da minha
festa?

por luana pinheiro

XLIV

Hoje eu acordei desejando a escuridão e a profundidade do vazio cósmico, mas não consegui. Levantei e disse para o dia: - Dê um rolê! E o rolê veio junto com uma sensação de liberdade e desapego de tudo que foi construído com sacrifício. Joguei tudo que tenho na escuridão sem me importar que pudesse mudar de idéia no cair da tarde. A única coisa que guardei foi a medalha de prata, um presente de uma amiga.
 
Do alto vejo um entulho de tudo que eu fui, com todas as velharias que me acorrentavam e iludiam com sua importância. Dei as costas para a porta e caminhei até o universo com o coração cheio de tags: cabelos desalinhados, mundo livre S.A, Devendra, medalha de prata, fruto, baixo. Mas minha alma chora.
 
por flor baez

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

XLIII

"Eu não vou dar para você nem que a luz volte!" passou a ser uma
expressão comumente usada.
 por iris yan

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

XLII

Patrick, Emanuel e Nadir deixam a sala de exposição interativa de sofás e entram na sala de instalações sonoras onde escutam:

- E agora vai saindo, saindo e líquido, saindo e gargalhante, saindo travisseirístico e peludo. E vira, vira na igreja, vira na caixinha de fósforos, vira na virilha, vira na intenção, vira a noite, vira de costas. Agora está parada, parada de metrô, parada de grafar braille, parada de atropelamento, parada de catalepsia, parada gay. Enfim morre, no dinheiro, de paixão, morre na primeira marcha, morre o assunto, morre de vontade. E tudo sobe, vai subindo e se espalhando, fofocas em prédios, flatos, fogos, fim de tempestade, pipoca, petróleo no fundo do mar, homem-bomba.


Continuam calados e seguem para outra sala do museu.

por henrique de sá

XLI

Nós temos a resposta e se estiver ouvindo essa mensagem, seja lá quem for...
você é a resistência!
por laio c. borges

XL

-Silêncio, eles estão lá fora e podem ouvir muito bem.
-Quem são eles papai? - sussurrou.
-São monstros, ouvi dizer que devoram gente, a escuridão caiu primeiro sobre
eles antes de cair sobre o resto do mundo, eram pessoas frágeis , mas agora são como deuses!
- Como eles se chamam papai?
- Cegos, os chamávamos de cegos...
por laio c. borges

XXXIX

Foi horrível, minha maldição era enxergar, eu não podia tatear, ouvir, falar ou sentir cheiro, porque eu estava atônito, tudo era muito bem iluminado,  aquelas malditas cores eram sedutoras, exaltavam a visão me deixando desesperado, pois faziam com que os outros quatro sentidos não fizessem tanto sentido.

Mas ao acordar em meio à escuridão absoluta, senti cheiro de tabaco, ela estava lá como sempre, tão aromal a beira da cama, eu podia sentir a pele enrugada da sua mão e ouvir sua voz mansa a dizer...

-Acorda, acorda foi só um pesadelo.

por laio c. borges

XXXVIII

Miguel tinha a pele alva como a de um gringo. Mas morava em um sítio invadido em Tinguá. Toda a tarde brincava de pique esconde com sua mãe mulata, de cabelos esvoaçantes. Eles adentravam mata selvagem e se escondiam atrás de árvores sem nomes. Filho único, Miguel achava que segurança era gritar sua matriarca e ser sempre correspondido.

No dia em que tudo ficou escuro, ele estava de short curto e sem blusa. Corria solto tentando encontrar a árvore perfeita. Quando gritou Mãe, a luz se foi. De dentro de seu peito, a palavra repetiu-se desesperadamente. E junto com ela, uma sensação de que precisava correr. A pele cortou-se entre os galhos que o seguravam, o short molhou-se com o orvalho que pingou das folhas. Miguel gritou até ficar rouco. E pela primeira vez, em nove anos de existência, sua mãe não respondeu.

por hanny saraiva

terça-feira, 3 de agosto de 2010

XXXVII

- Tudo isso não passa de uma grande basbaquice, um papo furado! Eu sou sozinho, e daí? Sou sozinho e todos são fantoches do meu bem-estar. Não os entendo nem sei o que pensam, e para mim isso não tem a menor importância. Basta que digam o que me interessa ou me favorece, do contrário, não os escuto. Sou hoje tão egoísta quanto ontem, e ainda estou vivo. Descobri o segredo da longevidade, da auto-satisfação, de gozar rápido por preguiça sem nem se preocupar. E o resto é tão simples como a utopia. O resto eu compro. O fim do mundo é acreditar no amanhã.

por tio goofy

XXXVI

Quando escureceu tudo, como que por instinto meteu a mão no saco. O instrumento ainda estava lá.
"Pelo menos não estou capado," pensou.
E procedeu para a segunda masturbação do dia.

por iris yan

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

XXXV

(na esquina, encostam a mão no akari shouji (estrutura de engenharia civil, paredes de papel) da discoteca japonesa e escutam uma música)

NOVATO PIMENTA
são vozes de edições de gravadoras, de produto musical, não acha? Essas cantoras Pop.

TEREZA ASSIS
não acho

NOVATO PIMENTA
são uquê?

TEREZA ASSIS
acho que são vozes alienígenas gravadas na Rússia e que se reproduzem sobre pixiels

NOVATO PIMENTA
nossa

TEREZA ASSIS
tá na cara que é isso
tão óbvio

por henrique de sá

XXXIV

primeiro houve o caos.
muitos morreram de fome.
outros morreram de medo.
pensaram ser o fim dos tempos. profetas do apocalipse gritavam nas ruas, pregando o suicídio. mas eles próprios não o fariam.
foi alguns dias depois que silenciosamente os agricultores perceberam que as plantas não deixaram de crescer.
cientistas tatearam teorias, e por fim aceitaram que de alguma forma os vegetais conseguiam sobreviver.
o sol ainda era quente, e provia o nutriente invisível para que pudessem continuar sua fotossíntese, que deveria ser rebatizada agora.

houveram sim extinções de muitos animais, mas depois de alguns anos o equilíbrio voltou a reinar.

a vida continuaria.

XXXIII

Quem faturou mesmo foi o dono da empresa que fabricava óculos ultravioletas que viam no escuro (como os óculos usados pelo serial killer no filme "O silêncio dos inocentes"). Nem ele esperava por tamanha interferência divina. A partir daí, todo Natal ele distribuía presentes às crianças nas favelas vestido de Papai Noel (podia ir pelado que ninguém repararia, mas era um homem que gostava de manter a tradição). Era sua forma de agradecer pela sua sorte.

por iris yan

XXXII

Quando a luz acabou, naturalmente os cegos dominaram o mundo. Já estavam acostumados com a escuridão, e bem melhor adaptados. Havia alguns cegos honestos e bons, e outros pilantras. Todo mundo aprendeu a ler e escrever Braille. De resto o mundo não mudou porra nenhuma, porque as pessoas continuaram iguais.


por iris yan

XXXI

"Papai, e como era o mundo quando havia luz?"

"Ah meu filho… o mundo era tão colorido… havia cores diferentes… minha cor favorita era o amarelo."

"O que são cores?"

"As cores são como sons, mas diferentes… você não percebe que existem sons graves, sons agudos, sons leves, sons bonitos, sons feios?"

"Sim, meu som favorito é o da televisão quando ela é ligada ou desligada."

"Então, as cores também eram como os sons, havia uma infinidade delas. É um outro sentido que tínhamos, não sei como explicar. Quando você nasceu já tinha acabado no mundo."

"Uau, que legal! Deve ter sido a melhor coisa do mundo, poder ver cores!"

"Sim, eu também achava que sim… mas segundo seu avô, não."

"O vovô? Por que ele não concorda?"

"Porque o vovô acha que quando acabou a luz, não foi tão horrível quanto quando acabou o metaformolol."

"Metaformolol? O que é isso?"

"Também não sei. Quando eu nasci, já não existia mais. O vovô tentou me explicar mas eu não entendi direito. Você vai ter de perguntar para ele."


por iris yan

XXX

Chegou em casa e sentiu o cheiro de outro homem. Ouviu da sala os gemidos da mulher no quarto. Com cuidado tateou até chegar ao sofá. Sentou-se. Lágrimas silenciosas corriam pelo seu rosto. Não era verdade que o que os olhos não vêem, o coração não sente. Havia outros sentidos. E seu coração sentia, e muito.

por iris yan

XXIX

Quando a luz acabou, José ficou deprimido. Sua mulher não o entendia.
"Mas você é ladrão, Zé, não devia ficar feliz que a luz acabou?"
"Sim… mas agora ficou fácil demais… Eu sou um profissional… qual a graça de roubar alguém nestas condições?"

por iris yan

XXVIII

Quando a luz acabou e tudo era escuridão, pelo menos três pessoas naquele prédio ficaram felizes:
O seu Juca, que já era cego e amargo, amou saber que todos agora estavam na mesma condição que ele. Depois ficou meio preocupado em saber como é que a enfermeira continuaria cuidando dele se ela não ia conseguir diferenciar os seus remédios, mas até ele se dar conta disso já era o terceiro dia de escuridão. Ficou feliz por exatas 56 horas.
A Mariana, que não se sentia mais acanhada e não precisava mais se preocupar em apagar a luz do quarto enquanto transava com Fernando. Por algum motivo, Mariana achou que podia gritar mais alto durante o ato sexual, até Fernando a lembrar de que o fato de não haver luz no mundo não significava que o som não continuava se propagando.
O Fernando, que deu graças a Deus de finalmente poder comer a Mariana de frente, e não ter de colocar um travesseiro cobrindo o seu rosto, pois julgava-a feia e isso o brochava. De corpo ela até que era gostosa e bastava.

por iris yan

domingo, 1 de agosto de 2010

XXVII



por hanny saraiva e henrique de sá

XXVI

dois corpos na cama.
penumbra.
uma luz fraca ao fundo deixava que se visse apenas o contorno do corpo dela, por cima do dele.

dois corpos na cama.
lado a lado, conversaram sobre tempos antigos, sobre lembranças e saudades.
quando ela perguntou seu nome, ele só sorriu.

dois corpos na cama.
fecharam os olhos.
dormiram.
e não houve mais luz.

por mazé mixo